SINDICATO DE LADRÕES – UMA OBRA ACIMA DE UMA BIOGRAFIA


 Os dilemas entre o compromisso social e os interesses individuais são o tema do arrasador Sindicato de Ladrões, que exibimos nessa sexta-feira, dentro da mostra Eternamente Brando, que ocorre durante todo o mês de julho na Vila das Artes, em homenagem aos 90 anos do maior ator de cinema de todos os tempos. Reputado como um "mea culpa" ou justificação para o dedo duro do genial diretor Elia Kazan durante o Macarthismo, o longa traz Brando no auge da sua verve criativa, esbanjando beleza e genialidade. No excelente texto assinado por Luca Salri, o leitor terá a oportunidade de conhecer melhor os fantasmas de Kazan, vigorosamente vaiado ao receber um Oscar honorário no final da década de 1990. Para além das canalhices individuais e das disputas ideológicas, no entanto, o filme deve ser visto como uma (soberba) obra de arte
  
Marlon Brando em Sindicato de Ladrões: o filme será exibido nessa sexta-feira, dentro da retrospectiva em homenagem ao ator

Por Luca Salri

“Elia Kazan ajudava a mudar a face do cinema americano naquele momento. Nada de estúdio. Ele ia ao porto mesmo para narrar a história dos sindicalistas corruptos e da lei do silêncio que vigorava entre eles. Essa absoluta verdade que emana dos personagens e das situações é que faz de "Sindicato dos Ladrões" um filme ainda hoje tão vivo. (Inácio Araújo – crítico de cinema)

No final de julho deste ano, um clássico do cinema mundial completa 60 anos: Sindicato de Ladrões (On the Waterfornt, EUA, 1954) do diretor Elia Kazan (1909-2003). É uma obra que resiste ao tempo, cujo tema principal é a traição, dentro e fora das telas. Para compreendermos isto, é necessário lembrarmos o contexto em que a obra foi feita.
Antes de se tornar diretor de cinema, Kazan trabalhou na Broadway, nos anos 40. Dessa experiência, ele soube aproveitar bem a interpretação dos atores em seus filmes. Nos seus primeiros trabalhos no cinema, ainda na década de 40, há uma forte carga social para temas como o antissemitismo e o racismo. Na década seguinte, Kazan tornou-se um dos revitalizadores do cinema norte-americano, juntamente com Samuel Fuller e Nicholas Ray. Entretanto, nessa época (início dos anos 1950), o mundo vivia os tempos da Guerra Fria. Este conflito indireto entre socialistas e capitalistas atingiu de forma contundente a sociedade americana, através da criação do Comitê de Atividades Anti-Americanas da Câmara dos Deputados, que perseguia políticos e artistas que estivessem envolvidos com o comunismo. Foi uma verdadeira “caça às bruxas” sob a liderança do senador Joseph MacCarthy. O episódio ficou conhecido como Macarthismo. Muitos artistas, para não prejudicar sua carreira, denunciaram colegas. Um desses artistas foi o diretor Elia Kazan.
Para se livrar dos interrogatórios e de possíveis retaliações dos estúdios, Kazan, que fora militante do Partido Comunista (como ele chegou a dizer, “um engano em minha carreira”), colaborou com o Comitê. Uma decisão muito mal vista pela classe artística de Hollywood, da qual o diretor nunca se arrependeu e que se tornou numa marca negativa na sua carreira. Em 1999, ao receber um Oscar Honorário das mãos de Robert De Niro e Martin Scorsese, provocou sonoros protestos ou um silêncio constrangedor por boa parte da plateia.
Sindicato de Ladrões acabou sendo uma resposta de Kazan a este fato.  A obra, realizada alguns anos após seu depoimento, não foi um pedido de desculpas do diretor. Foi sua justificativa para a decisão de testemunhar. Todo o questionamento ético de Kazan se encontra na obra, seja através dos diálogos incisivos sobre delação (“Delatar é quando você trai seus amigos” grita um personagem, “Delatar para eles é dizer a verdade, não veem isso?” fala outro) ou nas contradições reflexivas do personagem principal. Muitas controvérsias entre os críticos da época, para saber se era um pedido de desculpas ou não de Kazan, não puderam diminuir a importância da obra ao longo das décadas.
A produção custou U$$ 906 mil e foi rodada em apenas 36 dias, em Hoboken, Nova Jersey. Arrecadou U$$ 9,5 milhões, além de boas críticas e oito Oscars. O tempo passou e a película tornou-se uma das mais importantes da história do cinema, configurando entre os primeiros lugares da lista dos melhores longas do American Film Institute. É um drama bem construído e denso no seu conteúdo. A trama é sobre o dilema moral de um homem (Terry Malloy), um membro de um sindicato corrupto nas docas de Nova Iorque, entre denunciar ou não as falcatruas da instituição. A obra aborda um momento em que a máfia dominava a região e impunha regras opressivas sobre aqueles que se deixavam subordinar.
 Diversos fatores contribuíram para que o filme desse certo. Vamos enumerar alguns. Primeiro, a ótima direção de Elia Kazan é mais do que evidente. Segundo, o roteiro do dramaturgo Budd Schulberg, baseado em uma série de 24 artigos de jornal intitulada “Crimes on the waterfront”, sobre a corrupção no porto de Nova Iorque, aliada uma longa pesquisa de campo feita pelo roteirista que o levou a construir personagens inspirados em pessoas reais. Segue a estrutura de roteiro clássico com a saga do herói (neste caso, um herói com qualidades que aparecendo ao longo da trama), a presença da mocinha, o embate final com o vilão. O diferencial se encontra nos diálogos inspirados dentro de uma trama séria, sombria e realista para o cinema de Hollywood naquela época.

A fotografia em preto e branco é assinada por Boris Kaufman, com diversas tomadas externas e locações. Nas cenas noturnas, temos um clima misterioso e soturno no jogo de luz e sombra; e nas cenas diurnas, busca-se imprimir uma realidade em cada quadro. A trilha sonora é de Leonard Bernstein, que, aliada à fotografia, capta de forma magistral o clima sombrio e o frio real nova-iorquino.
 
A combinação do roteiro, fotografia e outros elementos (como o baixo orçamento) aproxima muito a obra do neorrealismo italiano, ao priorizar o realismo (ou o mais real possível) na tela e ao levar para ela um problema pouco conhecido da sociedade norte-americana.

O elenco é outro ponto forte do filme. Considerado, por muitos críticos, como um dos maiores reunidos em todos os tempos. É encabeçada por uma magistral interpretação de Marlon Brando, no auge de sua forma física (na época com quase 30 anos de idade e em sua terceira colaboração com Kazan).  Adepto do “Método” do Actors Studio, Brando levou o seu ex-pugilista fracassado “Terry Malloy” a uma sensibilidade e naturalismo impressionantes. Seu estilo peculiar de atuação, não apenas neste, era um tipo de interpretação da realidade e que ficou marcado pela escolha de gestos físicos em cenas importantes (a luva de Edie que ele coloca em sua própria mão ao invés de devolver a ela ou a mão sobre arma que o irmão aponta para ele, são exemplos).
Entretanto, nem só da atuação de Brando, o filme se sustenta. O restante do elenco principal (Malden, Cobb e Steiger) está brilhante. Eram atores oriundos do teatro nova-iorquino, conheciam muito bem o “Método” e contribuíram para dar credibilidade ao texto. Não foi à toa que o trio foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante. Já a mocinha ficou com Eva Marie Saint, estreando no cinema, e por sua atuação recebeu um Oscar. O uso de não-atores (os próprios estivadores) nas cenas das docas contribuíram bastante para o realismo que o filme imprimiu à época. É nos embates entre estes personagens que a traição (ou delação) se revela. Terry fica na dúvida se trai ou não seu irmão Charley e o chefão Johnny; Johnny e Charley traíram Terry quando era um pugilista promissor; os trabalhadores tem medo de denunciar os abusos do sindicato por medo de trair seus colegas. Somente personagens de coragem podem romper com o silêncio e revelar toda mentira. Assim com Terry, assim como o personagem de Karl Malden (Pe. Barry); E assim que pensava Kazan, na época do depor para o Comitê.
Ao completar “bodas de diamante”, a obra continua com seu valor. Marlon Brando é mais ícone do nunca, seja por seus dotes físicos ou pela sua maneira de atuar. Kazan, com sua delação, saiu no lucro, pois, tanto ele quanto sua obra foram premiados. Seu pedido de perdão representou sua inclusão definitiva na sociedade americana. Seus críticos dizem que ele usou a obra como pano de fundo de sua redenção. Kazan, no fundo, concordava com isso. Em “A life”, sua autobiografia, ele disse: “Sindicato de ladrões é a minha própria história; todos os dias em que me dedicava a ele, eu dizia ao mundo onde eu estava me posicionando e que meus críticos fossem se danar”.
E, no final das contas, Terry, por uma questão de consciência, agiu da melhor maneira que acreditava. Kazan agiu de acordo com sua consciência também. As decisões de Terry no filme e de Kazan na sua vida permanecem e permaneceram em nossas mentes, mesmo após o término do filme.  Cabe ao espectador deixar de lado o julgamento se Kazan agiu certo ou errado, e ver Sindicato de Ladrões como uma obra que está além da biografia do diretor, uma obra-prima que não pode ser renegada por qualquer cinéfilo. É uma questão de consciência para o espectador. Contudo, cuidado! Pois, como diria Terry: “Consciência, isso pode deixar a gente louco”.

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